Arqueologia Subaquática.


A âncora de Caboto

Arqueologia submarina resgata a história de um naufrágio em 1526

Já idoso, Sebastião Caboto trabalhava na elaboração de seu célebre planisfério, um mapa-múndi de grandes dimensões que se encontra hoje na Biblioteca Nacional de Paris, quando sua majestade Carlos V, rei da Espanha e imperador do Sacro Império, foi introduzido na sala. Transcorria o mês de setembro de 1544, e Caboto, surpreso com a visita, curva-se diante do Rei, cumprimentando-o respeitosamente:

– Mi Sacra Cesárea Majestad!

– Prosiga Caboto, prosiga! – diz o Rei, sentando-se numa poltrona ao lado.

– Isla de Santa Catalina – cita Caboto, indicando o local no mapa para que o desenhista escreva Y: de S: Catalina. Dirigindo-se ao rei, Caboto explica:

– Ésa imponente isla, Majestad, yo puso nombre – o navegador lembrava, orgulhoso, ter batizado a Ilha de Santa Catarina em novembro de 1526, quando ali esteve.

– En ella perdi la nao capitana – diz Caboto, agora sentado na poltrona ao lado do rei.

– Santa Catalina, Majestad, restó con mi ancla. Y mucho más! – continua Caboto, imaginando a grande âncora da nau capitânia no fundo da Barra Sul da Ilha.

– Un dia, alguno la encontrará. Pero quedará en secreto aquella que homenajeé, llamando la Isla de Santa Catalina – conclui Caboto.

– Así será, Sebastián. Así será! – diz o imperador ao levantar-se da poltrona, despedindo-se de Caboto. O imperador retira-se, rodeado pela corte que o acompanhava.

Esse hipotético diálogo poderia ser autêntico, considerada a veracidade histórica de seus detalhes e a importância da Ilha na história de Caboto. Tão verdadeiro que a âncora de Caboto continua submersa nas águas da Barra Sul da Ilha de Santa Catarina.

As descobertas arqueológicas marítimas excitam a imaginação e pressupõem mergulhadores e técnicos de renome no trabalho de pesquisa. Pois uma equipe de mergulhadores catarinenses, jovens entusiastas do mergulho e da pesca submarina, vem pesquisando com sucesso o fundo da Baía Sul nas proximidades da Ponta dos Naufragados. Gabriel Corrêa, Nei Mund Junior, Humberto Pfitzer, Flávio Corrêa, Bruno Germer e Rodrigo Meintanes, reunidos em torno da ONG Barra Sul, contam agora com o importante apoio da Fapesc.

Em meados de 2004, o mergulhador Gabriel Corrêa localizou ocasionalmente uma âncora de quatro metros de comprimento, identificada logo como de origem espanhola e do século 16. Com a licença da Marinha, as prospecções e novas descobertas ampliaram a expectativa sobre aquilo que a história das navegações espanholas confirma.

O local do sítio arqueológico, as dimensões e o estado desses achados iniciais, e os inúmeros relatos de tripulantes quanto ao naufrágio da nau Santa Maria de la Concepción, da extraordinária expedição de Caboto, não deixam dúvidas com relação à importância da descoberta dos jovens mergulhadores.

– Naquela entrada perdemos uma nau, a maior e melhor, que levamos em um ilhéu que está na boca do canal cheio de baixos onde se perdeu quase tudo que nela ia – testemunhou o cosmógrafo Alonso de Santa Cruz em 1530, entre tantos outros depoimentos existentes no Archivo de Índias de Sevilla.

Para efeito de análise do tamanho das embarcações do século 16 são consideradas as dimensões da quilha e da esloria, entendida esta como quilha + roda + cadaste. Uma caravela de 60 tonéis do início do século apresentava cerca de 15 metros de quilha e 21 metros de esloria. A expedição de Juan Diaz de Solís, que saiu da Espanha em outubro de 1515, trazia três caravelas, uma de 60 e duas de 30 tonéis cada, as menores com cerca de 15 homens cada. Uma das menores naufragou nas imediações da Barra Sul da Ilha no retorno do Rio da Prata, deixando uma herança de 11 tripulantes que fariam a história do Porto dos Patos e de Santa Catarina.

No final do primeiro quartel do século, as caravelas, chamadas agora de naus, passaram a apresentar portes de cem a 180 tonéis, com quilhas de 16,5 a 18,5 metros e esloria de 23 a 26 metros. Mais bojudas e com bordo mais alto, destinavam-se principalmente ao comércio, ou seja, ao transporte dos produtos e riquezas recolhidos nas colônias.

A expedição de Sebastião Caboto vinha com três naus, uma de 150 tonéis e duas de 120 tonéis cada. A nau capitânia, a maior delas, que naufragou na Barra Sul, teria, de acordo com as dimensões padrão da época, cerca de 18 metros de quilha e 25 metros de esloria. O armamento que levavam a bordo na época era escasso, um canhonete de sinalização e meia dúzia de entremichas nas curvas de convés para comportar alguma artilharia. Não havia ainda o risco de combate com inimigos e corsários. O confronto entre esses elementos técnicos e históricos, no auxílio à arqueologia subaquática, é que pode ajudar a identificar a embarcação naufragada.

Caboto, piloto-mor da Espanha em substituição ao infeliz Solís, vinha comandando uma das mais importantes expedições espanholas daquele momento histórico. O objetivo expresso na Capitulación assinada com a Coroa era descobrir o caminho para as Ilhas Molucas, prosseguindo até Tarsis e Ofir (Índia), Cathay oriental (China) e Cipango (Japão). A missão implicava carregar as três naus de metais e pedras preciosas, especiarias, sedas e outras coisas de valor. O contato com os náufragos de Solís no Porto dos Patos o convenceu a alterar a rota prevista e alcançar a Serra da Prata, subindo o Rio da Prata e o Paraná, explorando pioneiramente a Argentina e o Paraguai.

– Mira hijos, que desto se cargará las naos, del oro e de la plata – dizia o entusiasmado Enrique Montes, mostrando algumas amostras de ouro no Porto dos Patos.

Ali Caboto permaneceu de 19 de outubro de 1526 a 15 de fevereiro de 1527, construindo uma galera que substituísse a nau perdida na Barra Sul e ajudando a construir a história de Santa Catarina, que acabou batizando. Muito há que ser realizado, com o cuidado que o assunto vem merecendo, mas não seria exagero dizer que estamos próximos de uma das mais importantes revelações da história marítima da era dos descobrimentos.

* Autor do livro Porto dos Patos – A Fantástica e Verdadeira História da Ilha de Santa Catarina na Era dos Descobrimentos
POR JOÃO CARLOS MOSIMANN *

Fonte: Diária Catarinense de 01/08/09



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